Sexta-feira. Dia 05 de junho. Saí do meu trabalho de carro e fui direto pra base do Samu. Os pensamentos dentro do carro iam a mil. Depois de uma semana de muitas ligações tentando conseguir autorização para acompanhar as viaturas, eles finalmente tinham cedido. Estacionei o carro. O relógio marcava 16 horas e meu estômago se revirava de fome. Eu tinha ficado sem horário de almoço pra sair mais cedo do trabalho.
Desci do carro e já fui logo interrogada por um dos motoristas das viaturas. Eu disse o que precisava e desci pra parte de atendimentos a ligações. A mulher do coordenador, responsável quando ele não está, me recebeu e me apresentou ao pessoal. Entrei na sala de atendimentos e fiquei atenta a tudo que acontecia, perguntando nos intervalos algumas coisas. A conversa era constante e isso me deixava mais confortável. Cada vez que o telefone tocava eu criava uma dolorosa expectativa de que seria a hora de presenciar algum acidente.
A reportagem sairia no jornal especial sobre trânsito na cidade. Meu objetivo ali era acompanhar o dia-a-dia dos “heróis” do Samu e, depois, do Corpo de Bombeiros.
Depois de algum tempo ali esperando, muitos telefonemas sem necessidade e alguns trotes, a seriedade no rosto da telefonista ao atender uma ligação me deixou ainda mais atenta. E logo depois foi anunciado: vítima de facada. A curiosidade foi mais forte que o meu bom senso de esperar o fato que eu realmente precisava. Eu fui.
Na viatura de suporte avançado, eu fui. Com o coração batendo cada vez mais rápido, as mãos segurando forte e uma tensão cada vez maior pela alta velocidade do veículo e a expectativa pelo que seria visto, eu acompanhei na parte de trás da viatura todo o procedimento de preparo para receber a vítima que provavelmente estaria muito ensangüentada.
Chegamos ao local. Muita gente na rua. Entramos em uma casa velha e com um cheiro insuportável de gato. A mulher estava lá, com a mão na cabeça, chorando e o sangue escorrendo pela mão. O homem que morava com ela tinha dado uma paulada em sua cabeça. Teve perfuração. Ela, chorando, com algumas falhas na fala e um cheiro de gato que se misturava ao seu forte hálito de bebida alcoólica, foi levada ao hospital.
Chegamos ao hospital. Enquanto a vítima era levada deitada na maca, eu ajudava enquanto prestava atenção no radinho da viatura. “Acidente com carro e caminhão na Rua _. Corpo de Bombeiros precisa de reforços da viatura de suporte avançado”. Suspirei aliviada e agradecida pela minha curiosidade ter falado mais alto.
Fomos para o local. A viatura foi novamente arrumada para o atendimento às vítimas do acidente. No local, um fusca completamente destruído contra uma placa. Não havia vítimas. A sensação é uma mistura de decepção e alívio. “Não foi agora que consegui minha reportagem” e, ao mesmo tempo, “Que bom que ninguém se machucou”.
Fui embora com a sensação de que nada tinha adiantado minha ida, mas que aquilo tudo jamais seria esquecido.
E, no outro dia, ali estaria eu de novo.